Aluno surdo é aprovado no vestibular da UFABC

Noticia_20160201-1_ImagemA superação dos desafios impostos pela vida requer coragem. Virtude que o auxiliar de produção desempregado Erliandro Felix da Silva, 35 anos, tem de sobra. Deficiente auditivo desde os 6 anos, o morador de Diadema não cedeu à tentativa de imposição da realidade precária de Eunápolis, sua cidade natal, na Bahia, e, após receber diversas negativas para ingressar na escola, aos 19 anos, ainda analfabeto, decidiu fugir para São Paulo em busca de seu sonho. Quase duas décadas depois do ato de desapego, a recompensa está prestes a ser concretizada: ele está entre os estudantes pré-selecionados via SiSU (Sistema de Seleção Unificada) para ingressar no BC&T (Bacharelado de Ciência e Tecnologia) da UFABC (Universidade Federal do ABC).

Com sorriso estampado no rosto, consequência de tamanho orgulho próprio, e olhos lacrimejados, Silva volta às origens e lembra da época em que o mais próximo da escola que conseguia ficar era na calçada, munido de papelão e carvão para tentar reproduzir os ‘desenhos’ que a professora criava na lousa. Vítima de meningite e integrante de família humilde e analfabeta, o menino não encontrou o apoio necessário para ser incluído. “Aos 19 anos, entrei escondido em um caminhão de laranjas e, só com a roupa do corpo e chinelo de dedo, fugi para São Paulo”, lembra.

A luta diária para aprender contou com a ajuda de pessoas que Silva conheceu na nova casa. “Encontrei uma senhora, já falecida, que era professora. Ela me acolheu e me ensinou as vogais e o alfabeto.” Mas o ingresso na escola regular só foi possível aos 20 anos, com ajuda de associação de apoio às pessoas com deficiência. “Estava tão feliz, que ficava o dia todo na escola, mas não conseguia aprender.”

Foi só aos 26 anos, em grupo para pessoas com surdez de uma igreja evangélica, que Silva descobriu a Libras (Língua Brasileira de Sinais) e, a partir disso, encontrou seu lugar no mundo. “Depois que concluí o segundo ciclo do Ensino Fundamental e o Ensino Médio por meio do supletivo, não quis mais parar. Tinha muita vontade de fazer uma faculdade e escolhi a área da logística.”

Ingressar no curso de Logística na Uninove (Universidade Nove de Julho) não foi tarefa fácil. Silva conta, hoje aos risos, que prestou 14 vestibulares específicos para deficientes auditivos e foi reprovado. A aprovação foi fruto de novo ato de ‘rebeldia’ contra o sistema. “Fiz a prova tradicional como se não tivesse deficiência e fui aprovado, mas a faculdade não tinha intérprete de Libras, o que dificultou as coisas. Me formei em 2009, mas não peguei o diploma, porque fiquei com DP (Dependência, ou seja, reprovação em determinada matéria, que precisa ser refeita).”

Neste período, o morador de Diadema começou a trabalhar como auxiliar de produção, embora tivesse formação em Logística. “O mercado de trabalho não é igualitário. As empresas até contratam pessoas com deficiência porque são obrigadas, mas colocam os profissionais, muitas vezes, em setores sem levar em conta sua formação ou vontade.” </CW>

Este é só um exemplo das inúmeras dificuldades que a população com deficiência têm de enfrentar no dia a dia. Tarefas consideradas simples, como ir ao banco, ao médico ou pedir informações na rua, tornam-se complexas para os cerca de 126,6 mil deficientes auditivos do Grande ABC, conforme o Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), devido à falta de estrutura ofertada pelo poder público. Quando precisa de ajuda, Silva conta com a solidariedade do vizinho David Caique Oliveira, 21, intérprete de Libras. Ambos se conheceram na universidade.

Se for aprovado no processo de seleção específico e conseguir ingressar na UFABC, o morador de Diadema tem planos ousados. “Quero fazer pós-graduação, mestrado, ser professor. Minha vontade é ajudar a melhorar a estrutura e a vida dos surdos. Tenho muita paixão por aprender”, orgulha-se. E, se depender da força de vontade e do amor pela vida demonstrados por Silva, os objetivos certamente serão alcançados.

A UFABC disponibiliza anualmente 1,69% das 1.960 vagas do vestibular para pessoas com deficiência, o equivalente a 33 oportunidades. Atendendo à Lei Federal 10.436 de 2002, a instituição tem três professores intérpretes de Libras. 

Fonte:01http://www.dgabc.com.br/

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