{"id":982,"date":"2014-06-16T00:44:01","date_gmt":"2014-06-16T00:44:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.socepel.com.br\/wpress\/?p=982"},"modified":"2025-08-19T14:33:51","modified_gmt":"2025-08-19T14:33:51","slug":"aceitando-as-diferencas-o-surdo-e-a-libras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socepel.com.br\/?p=982","title":{"rendered":"Aceitando as diferen\u00e7as: o surdo e a LIBRAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Aceitando as diferen\u00e7as: o surdo e a LIBRAS<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Conhe\u00e7a o universo daqueles que apesar de n\u00e3o escutarem, t\u00eam muito a dizer.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>J\u00e9ssica Soler<\/em><\/p>\n<p>A humanidade sempre relutou em aceitar as diferen\u00e7as existentes entre os indiv\u00edduos. Desde a Antiguidade, as pessoas rejeitavam aqueles que por algum motivo divergiam do padr\u00e3o estabelecido pela sociedade. No Brasil, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que o preconceito para com o diferente diminuiu, contudo, \u00e9 n\u00edtido que ele persiste e est\u00e1 atrelado ao dia-a-dia, ainda que n\u00e3o seja notado. Quanto aos surdos, n\u00e3o h\u00e1 muita diferen\u00e7a. O preconceito contra a pessoa surda existe, e somente a busca por esclarecimentos poder\u00e1 reduzi-lo.<\/p>\n<p>De acordo com o Art. 2o da Lei n\u00ba 10.436, pessoa surda \u00e9 aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experi\u00eancias visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da L\u00edngua Brasileira de Sinais &#8211; LIBRAS.<\/p>\n<p><strong>TEXTOUma breve hist\u00f3ria sobre os surdos e a LIBRAS<\/strong><\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia Antiga sempre foi muito preocupada com a est\u00e9tica e a perfei\u00e7\u00e3o corporal, costumavam desprezar os deficientes. Muitos deles eram mortos logo que nasciam, justo pelo fato de n\u00e3o corresponderem a um ideal atl\u00e9tico perfeito. No livro A pol\u00edtica de Arist\u00f3teles, o fil\u00f3sofo considera, aproximadamente em 300a.C., que \u201c(&#8230;) com respeito a conhecer quais os filhos que devem ser abandonados ou educados, precisa existir uma lei que pro\u00edba nutrir toda crian\u00e7a deforme\u201d.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos surdos, a Hist\u00f3ria se repete. Em Esparta, costumavam arremess\u00e1-los do alto das montanhas. Na Antiguidade Chinesa, eles eram atirados ao mar e, em Roma, n\u00e3o podiam exercer seus direitos como as outras pessoas. No s\u00e9culo XIX, Jean Marc Gaspard Itard, m\u00e9dico cirurgi\u00e3o, procurando encontrar a cura para a surdez chegou a dissecar cad\u00e1veres de surdos, perfurar membranas timp\u00e2nicas de alunos e at\u00e9 mesmo aplicar descargas el\u00e9tricas nos ouvidos de alguns deles.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o de surdos, por\u00e9m, se iniciou no s\u00e9culo XVI, na Espanha, com Pedro Ponce de Leon, considerado o primeiro professor de surdos, que utilizava a escrita e gestos manuais simples na instru\u00e7\u00e3o dos alunos. Na Inglaterra, s\u00e9culo XVII, William Holder tamb\u00e9m dava os primeiros passos para a aprendizagem dos surdos. No Brasil, a primeira escola para deficientes auditivos foi fundada em 1857, no Rio de Janeiro. A pedido de Dom Pedro II, Ernest Huet, professor surdo e franc\u00eas, veio ao pa\u00eds ensinar a L\u00edngua de Sinais da Fran\u00e7a. Motivo que contribuiu para que, at\u00e9 hoje, a LIBRAS possua influ\u00eancias da L\u00edngua de Sinais Francesa.<\/p>\n<p>Contudo, em 1880, um Congresso realizado em Mil\u00e3o decidiu que o ensino oralizado deveria ser privilegiado em rela\u00e7\u00e3o ao ensino gestual, proibindo ent\u00e3o que se utilizasse a l\u00edngua de sinais em escolas. Essa decis\u00e3o prejudicou o desenvolvimento das l\u00ednguas gestuais em todo o mundo. Entretanto, os surdos n\u00e3o extinguiram os sinais de suas vidas e continuaram usando-os, \u00e0s escondidas, at\u00e9 que pudessem, novamente, comunicar-se por meio deles. Com o passar do tempo e o surgimento de novas teorias, as l\u00ednguas gestuais conseguiram, aos poucos, retomar seus pap\u00e9is na aprendizagem do surdo.<\/p>\n<p>No Brasil, com a promulga\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 10.436, em 2002 e com sua regulamenta\u00e7\u00e3o pelo decreto 5626, em 2005, a LIBRAS passou a ser a l\u00edngua oficial da comunidade surda no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>LIBRAS, o qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Muitas pessoas costumam passar despercebidas diante das mais de cinco milh\u00f5es de outras que utilizam uma l\u00edngua diferente do portugu\u00eas para se comunicarem. Seria o ingl\u00eas? O espanhol? O franc\u00eas? N\u00e3o! A LIBRAS (L\u00edngua Brasileira de Sinais). No Brasil, a L\u00edngua Brasileira de Sinais \u00e9 reconhecida como o segundo \u201cidioma\u201d oficial.<\/p>\n<p>De acordo com o Art. 1\u00ba da Lei n\u00ba 10.436, a LIBRAS \u00e9 uma forma de comunica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o, em que o sistema lingu\u00edstico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical pr\u00f3pria, constitui um mecanismo lingu\u00edstico de transmiss\u00e3o de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.<\/p>\n<p>A LIBRAS \u00e9 uma l\u00edngua e n\u00e3o apenas uma tradu\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas para o gestual. Ela possui uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria, com regras independentes da L\u00edngua Portuguesa. Ao contr\u00e1rio do que muita gente pensa, ela tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma l\u00edngua universal. Nenhuma l\u00edngua oral, ali\u00e1s, \u00e9 universal. N\u00e3o h\u00e1 motivos, portanto, para que haja uma l\u00edngua gestual global. Cada pa\u00eds possui a sua l\u00edngua de sinais oficial, como a L\u00edngua de Sinais Americana (ASL), a L\u00edngua de Sinais Francesa (LSF), a Inglesa (SE), dentre outras. Existe, por\u00e9m, a L\u00edngua Internacional de Sinais (Gestuno), que \u00e9 uma linguagem e n\u00e3o uma l\u00edngua de fato, j\u00e1 que n\u00e3o possui uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria. Ela \u00e9 utilizada geralmente em reuni\u00f5es ou em confer\u00eancias internacionais.<\/p>\n<p>Juliana Fernandes, diretora administrativa da FENEIS (Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Educa\u00e7\u00e3o e Integra\u00e7\u00e3o dos Surdos) na cidade de S\u00e3o Paulo, explica que a LIBRAS sofre altera\u00e7\u00f5es como qualquer outra l\u00edngua. \u201cN\u00f3s temos dialetos, temos o aipim, a mandioca e a macaxeira, no portugu\u00eas. As l\u00ednguas de sinais tamb\u00e9m possuem essas varia\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-dialetais que n\u00f3s identificamos na l\u00edngua portuguesa e em qualquer outra l\u00edngua oral\u201d. Segundo Juliana, o vocabul\u00e1rio da LIBRAS vem crescendo cada vez mais: \u201cHoje em dia, os surdos est\u00e3o indo fazer engenharia, arquitetura, matem\u00e1tica. E os sinais t\u00e9cnicos, os jarg\u00f5es existem. A l\u00edngua vem sofrendo um boom, um grande aumento de vocabul\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p><strong>A FENEIS SP<\/strong><\/p>\n<p>A FENEIS \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos e um dos \u00f3rg\u00e3os de maior representatividade da comunidade surda no pa\u00eds. Desde que foi fundada, em 1987, realiza um importante trabalho de divulga\u00e7\u00e3o da l\u00edngua de sinais. Oferece cursos de LIBRAS para surdos, int\u00e9rpretes e ouvintes; promove debates, palestras e est\u00e1 sempre envolvida em movimentos que lutam pela causa surda no Brasil.<\/p>\n<p>Juliana Fernandes explica que muitos surdos v\u00e3o \u00e0 Feneis SP procurar ajuda para que possam ir ao Minist\u00e9rio P\u00fabico e exigir a presen\u00e7a de um int\u00e9rprete em sua universidade. \u201cAinda n\u00e3o aconteceu, mas o dia que um surdo passar na FUVEST [Funda\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria para o Vestibular], ser\u00e1 obrigat\u00f3ria a presen\u00e7a de int\u00e9rpretes na USP [Universidade de S\u00e3o Paulo]\u201d, completa.<br \/>\nPara ela, \u00e9 poss\u00edvel garantir acessibilidade para o surdo. \u201cA grande barreira para eles \u00e9 a barreira lingu\u00edstica. Garantir a inclus\u00e3o \u00e9 garantir a presen\u00e7a de int\u00e9rpretes nos espa\u00e7os p\u00fablicos. Nos cinemas, nas universidades, dentro de hospitais, aeroportos, enfim, \u00e9 garantir int\u00e9rpretes. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso que existam mais escolas bil\u00edngues, este \u00e9 um dos grandes pleitos do surdo\u201d.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 quest\u00e3o do preconceito, a FENEIS vem lutando em busca de um maior esclarecimento por parte da popula\u00e7\u00e3o. \u201cExiste muito preconceito pelo fato do desconhecimento das pessoas. Nosso trabalho \u00e9 de \u2018formiguinha\u2019, exige paci\u00eancia e determina\u00e7\u00e3o\u201d. Ela conta que em empresas, mesmo com a inclus\u00e3o por cotas, existe receio. \u201cN\u00f3s percebemos o preconceito ainda muito atrelado. As empresas dizem que aceitam surdos, mas querem surdos que saibam falar, escrever, fazer tudo. Ou seja, n\u00e3o querem um surdo, querem algu\u00e9m que escute um pouquinho\u201d.<\/p>\n<p><strong>O ambiente escolar: uma dif\u00edcil escolha<\/strong><\/p>\n<p>Carolina Vieira Dirolli, 11 anos, ficou surda devido a uma meningite bacteriana que a atingiu ainda muito pequena. Os pais a colocaram numa escola particular regular aos dois anos de idade. Carolina sempre foi muito esperta e comunicativa, mas deu-se o momento em que ela j\u00e1 n\u00e3o conseguia mais acompanhar o ritmo de seus colegas de classe. E a escola, segundo o pai, Marcelo Dirolli, n\u00e3o estimulava sua filha \u00e0 aprendizagem.<\/p>\n<p>No come\u00e7o deste ano, os pais se viram, ent\u00e3o, numa situa\u00e7\u00e3o complicada. Tirar a menina da escola particular, em que sempre estudara, ou procurar uma escola p\u00fablica especializada. Esta \u00e9 uma d\u00favida corriqueira de grande parte das fam\u00edlias de crian\u00e7as surdas.<\/p>\n<p>Depois de muita procura, por\u00e9m, os pais de Carol encontraram a EMEBS (Escola Municipal de Ensino Bil\u00edngue para Surdos) Helen Keller e finalmente decidiram matricul\u00e1-la. A Helen Keller \u00e9 uma escola bil\u00edngue que atende crian\u00e7as, jovens e adultos com surdez e com surdez associada a outras defici\u00eancias. As aulas, sejam elas de portugu\u00eas, ci\u00eancias ou matem\u00e1tica, s\u00e3o todas ministradas em LIBRAS. Foi a escola pioneira dentre as EMEBS de S\u00e3o Paulo. Possui um amplo espa\u00e7o f\u00edsico, com direito a playgrounds, horta, quadra, \u201cJardim dos Sentidos\u201d, sala multim\u00eddia, diversos espa\u00e7os de artes, um deles, inclusive, preparado para receber alunos surdo-cegos e muitos outros.<\/p>\n<p>A diretora M\u00f4nica Lemos Amoroso explica que existe um grande cuidado com os alunos. \u201cAqui temos poucos alunos, eles s\u00e3o atendidos em grupos de dez, podemos dar a aten\u00e7\u00e3o que eles precisam\u201d. Ela conta ainda, que a escola oferece curso de LIBRAS gratuito para pais e familiares. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio facilitar a comunica\u00e7\u00e3o entre eles\u201d.<\/p>\n<p>Quanto a Carolina, M\u00f4nica fala sobre sua r\u00e1pida adapta\u00e7\u00e3o. \u201cA gente sente a diferen\u00e7a na aquisi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, quando ela chegou aqui sabia um pouquinho e, hoje, nem parece a mesma crian\u00e7a no sentido lingu\u00edstico. Ela \u00e9 muito querida, a gente v\u00ea que ela se encontrou, tem muitos amigos, n\u00e3o parece a mesma menina que entrou\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, os pais de Carolina sentem que fizeram a escolha certa. Ela j\u00e1 possui um bom conhecimento da L\u00edngua de Sinais e consegue se comunicar muito melhor com os pais, que frequentam o curso oferecido pela escola. \u201cVemos que ela tem mais autonomia, mais amigos, vemos que ela pode crescer. Eu sei que foi o certo, hoje ela est\u00e1 feliz\u201d, completa o pai.<\/p>\n<p><strong>Curiosidades<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 ouviu falar em c\u00e3o ouvinte? Eles s\u00e3o c\u00e3ezinhos treinados para auxiliar surdos no seu dia-a-dia. Identificados com coleiras laranja ou vestimentas com os dizeres hearing dog (c\u00e3o ouvinte), esses animais s\u00e3o respons\u00e1veis por reconhecer sons que possam fazer parte do cotidiano de seus donos. Sendo assim, capazes de alert\u00e1-los sobre simples chamadas telef\u00f4nicas e campainhas ou, at\u00e9 mesmo, sobre o disparo de alarmes de inc\u00eandio, choro de beb\u00eas e ve\u00edculos dando r\u00e9.<\/p>\n<p>A escola EMEBS Helen Keller \u00e9 uma homenagem a essa grande mulher. Helen Keller (1880-1968) ficou surda-cega ainda quando crian\u00e7a. Com a ajuda de Anne Sullivan, sua professora, Helen cresceu, formou-se, tornou-se escritora, fil\u00f3sofa, jornalista, foi premiada pelas maiores institui\u00e7\u00f5es de ensino do mundo, em diversos pa\u00edses, recebeu in\u00fameras condecora\u00e7\u00f5es e sempre lutou pelos direitos dos deficientes. Uma parte de sua vida \u00e9 contada no filme \u201cO Milagre de Anne Sullivan\u201d, que narra as dificuldades da professora para ensinar e educar a menina, at\u00e9 ent\u00e3o, muito mimada e protegida pelos pais. O filme, extremamente emocionante, \u00e9 um exemplo de vida e supera\u00e7\u00e3o para cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Para agu\u00e7ar os sentidos\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o deixe de conferir alguns v\u00eddeos que tratam do assunto!<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IgPRI6-8Efw&amp;feature=related\">Aceitando as diferen\u00e7as. Exemplo da igualdade no tratamento para com os deficientes auditivos, as Olimp\u00edadas de Londres apresentam em seu encerramento um coral formado por dois grupos de crian\u00e7as: algumas cantando e outras interpretando a m\u00fasica Imagine, de John Lennon, na L\u00edngua Inglesa de Sinais.<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ISdHPEjNgl8\">Trailer do filme \u201cO Milagre de Anne Sullivan\u201d, lan\u00e7ado em 1962.<\/a><\/p>\n<p>Para mais informa\u00e7\u00f5es, acesse:<br \/>\n&#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/feneis.com.br\/\">feneis.com.br<\/a><br \/>\n&#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/feneissp.org.br\/\">feneissp.org.br<\/a><br \/>\n&#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/surdo.org.br\/\">surdo.org.br<\/a><\/p>\n<p>http:\/\/saci.org.br\/index.php?modulo=akemi&#038;parametro=41141<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aceitando as diferen\u00e7as: o surdo e a LIBRAS Conhe\u00e7a o universo daqueles que apesar de n\u00e3o escutarem, t\u00eam muito a dizer. 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