{"id":7151,"date":"2020-12-16T02:15:51","date_gmt":"2020-12-16T02:15:51","guid":{"rendered":"https:\/\/socepel.com.br\/?p=7151"},"modified":"2020-12-23T02:27:23","modified_gmt":"2020-12-23T02:27:23","slug":"professora-vira-referencia-no-combate-a-violencia-contra-mulheres-surdas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socepel.com.br\/?p=7151","title":{"rendered":"Professora vira refer\u00eancia no combate \u00e0 viol\u00eancia contra mulheres surdas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7152\" src=\"https:\/\/socepel.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Noticia_20207151_Imagem.jpg\" alt=\"\" width=\"717\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/socepel.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Noticia_20207151_Imagem.jpg 717w, https:\/\/socepel.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Noticia_20207151_Imagem-300x184.jpg 300w, https:\/\/socepel.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Noticia_20207151_Imagem-600x368.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 717px) 100vw, 717px\" \/>Al\u00e9m das quase 180 mil mortes no Brasil, a pandemia do novo coronav\u00edrus tamb\u00e9m tem contribu\u00eddo para o aumento de outra preocupante pandemia paralela: a da viol\u00eancia dom\u00e9stica contra mulheres em isolamento social. E, se denunciar os abusos j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil para muitas mulheres que est\u00e3o confinadas com seus agressores, pode ser ainda mais complicado para um grupo em especial: o das mulheres surdas.<\/p>\n<p>&#8220;A viol\u00eancia dom\u00e9stica aumentou muito e para as surdas \u00e9 completamente diferente e ainda pior&#8221;, diz Laiza Rebou\u00e7as, professora com forma\u00e7\u00e3o em letras e direito no Centro de Capacita\u00e7\u00e3o de Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o e de Atendimento \u00e0s Pessoas com Surdez &#8211; CAS Wilson Lins, em Salvador. &#8220;Elas t\u00eam uma l\u00edngua pr\u00f3pria e diferente para se comunicar e n\u00e3o encontram acessibilidade nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para denunciar, pedir socorro ou buscar seus direitos.&#8221;<\/p>\n<p>Laiza sabe do que fala. Al\u00e9m de lidar diariamente com essas mulheres em sala de aula, ela tamb\u00e9m \u00e9 surda e, fora do expediente, milita pelos direitos essas mulheres, o que, no passado, acreditava ser incompat\u00edvel com a sua condi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Descoberta da identidade<\/p>\n<p>At\u00e9 os 16 anos, Laiza, que foi diagnosticada surda ainda menina, mal se comunicava. Foi por esfor\u00e7o pr\u00f3prio e com a ajuda de pessoas surdas que, por volta dessa idade, aprendeu e ficou fluente em Libras (L\u00edngua Brasileira de Sinais<\/p>\n<p>&#8220;A partir dali foi que descobri a minha identidade, me senti segura. Assim, comecei a estudar letras pela L\u00edngua Brasileira de Sinais e a minha vis\u00e3o se abriu para um novo horizonte&#8221;, explica. &#8220;Foi muito dif\u00edcil, muita dedica\u00e7\u00e3o, muitas leituras. Perdi e recuperei mat\u00e9rias. At\u00e9 me formar, foram seis anos de gradua\u00e7\u00e3o e precisei de acompanhamento de int\u00e9rpretes de Libras, e tamb\u00e9m ajuda de alguns colegas queridos que me deixavam copiar seus cadernos.&#8221;<\/p>\n<p>Mesmo com todas as dificuldades, em 2012 ela conseguiu se formar por uma universidade federal e, em 2017, concluiu a segunda gradua\u00e7\u00e3o, em direito<\/p>\n<p>Depois de muitas prova\u00e7\u00f5es, Laiza conseguiu arranjar um emprego de professora e, em 2019, teve a ideia de criar um canal de orienta\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas em Libras no YouTube e em outras redes sociais, como Instagram e Facebook. O JusLibras (sigla de Justi\u00e7a em Libras), embora n\u00e3o seja exclusivamente voltado para mulheres surdas, aborda e responde em v\u00eddeos muitas quest\u00f5es de interesse delas. Um dos principais t\u00f3picos tem sido a viol\u00eancia dom\u00e9stica<\/p>\n<p>&#8220;A maioria n\u00e3o sabe ou n\u00e3o consegue tomar atitudes, como ligar para a pol\u00edcia, fazer boletim de ocorr\u00eancia ou registrar agress\u00f5es f\u00edsicas no IML [Instituto M\u00e9dico Legal]&#8221;, diz Laiza. Segundo ela, toda semana pelo menos tr\u00eas mulheres surdas a procuram. &#8220;Converso com as que me enviam emails ou mensagens por WhatsApp e tento orientar o melhor caminho para buscar seus direitos<\/p>\n<p><u>\u00a0<\/u>Foi o que fez Karla*, que sob a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter seu nome revelado, conta sua experi\u00eancia com o JusLibras: &#8220;Estava com problemas e o propriet\u00e1rio da minha casa me expulsou e me impediu de entrar nela. Como n\u00e3o me comunico bem, a Laiza me ajudou a registrar uma queixa na delegacia<\/p>\n<p>A professora ainda \u00e9 membro ativo de v\u00e1rios grupos na internet direcionados para pessoas surdas e que debatem temas como feminismo e diversidade racial e sexual e tamb\u00e9m ministra palestras sobre direitos da mulher e viol\u00eancia. Em janeiro, lan\u00e7ar\u00e1 um curso online sobre leis e acessibilidade para surdos e espera criar outro s\u00f3 para mulheres.<\/p>\n<p><u>\u00a0<\/u><u>Ajuda para sair de casa e no pedido de pens\u00e3o.<\/u><\/p>\n<p><u>\u00a0<\/u>Com a repercuss\u00e3o do seu trabalho, em grande parte volunt\u00e1rio, Laiza conta que j\u00e1 salvou a vida de dezenas de mulheres surdas n\u00e3o apenas no seu estado como no Brasil todo. Para isso, diz que o apoio da comunidade surda \u00e9 fundamental. &#8220;Muitos sabem da minha iniciativa&#8221;, diz<\/p>\n<p>Entre as v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica que ela socorreu est\u00e1 Lav\u00ednia*, outra mulher surda que concedeu entrevista sob a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ser identificada. Por n\u00e3o conseguir se comunicar em portugu\u00eas, foi Laiza tamb\u00e9m quem traduziu seu relato:<\/p>\n<p>&#8220;Sofri muito, a ponto de parar no hospital e ser expulsa de casa com meu filho de apenas um m\u00eas de vida. Procurei Laiza pelo JusLibras e conversamos por videochamada em Libras&#8221;, diz<\/p>\n<p>&#8220;Estava desesperada e s\u00f3 consegui contar a minha situa\u00e7\u00e3o porque meu ex estava fora e me trancava ora na cozinha, ora no banheiro. Hoje, estou com meu filho na casa de minha m\u00e3e, em outro estado, e Laiza est\u00e1 me ajudando com um processo para obten\u00e7\u00e3o de pens\u00e3o aliment\u00edcia.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lav\u00ednia* conta que procurou a pol\u00edcia diversas vezes, mas nunca encontrou algu\u00e9m que pudesse atend\u00ea-la em Libras, nem pelos n\u00fameros 100 (Disque Direitos Humanos), 190 (Pol\u00edcia Militar) ou 180 (Central de Atendimento \u00e0 Mulher)<\/p>\n<p><u>\u00a0<\/u><u>&#8220;<\/u><u>Menos perigosos&#8221;<\/u><\/p>\n<p><u>\u00a0<\/u>Nesse contexto, ela exp\u00f5e outro agravante da situa\u00e7\u00e3o que Laiza confirma: o de que, quando o agressor tamb\u00e9m \u00e9 surdo, as autoridades fazem vista grossa por consider\u00e1-los &#8220;incapazes&#8221; ou &#8220;menos perigosos&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo depois das agress\u00f5es f\u00edsicas e verbais que sofri, meu ex continua livre, como se nada tivesse acontecido&#8221;, diz Lav\u00ednia. Laiza diz que os casos n\u00e3o s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o. &#8220;Uma vez estava em uma live em grupo quando uma das participantes foi empurrada e puxada pelo namorado. Ele pediu desculpas e tal, mas desconfiei, pelo olhar da v\u00edtima, de que ela n\u00e3o estava bem e alertei meus contatos do grupo de feminismo para procurar alguma conhecida dela&#8221;, explica a professora.<\/p>\n<p>&#8220;Depois de uma semana, a pol\u00edcia prendeu o rapaz. Mas, acredite, por apenas um dia, para que ela conseguisse sair da casa, e hoje ele est\u00e1 solto. Por isso a minha luta, espero conseguir quebrar essas barreiras na \u00e1rea jur\u00eddica.&#8221;<\/p>\n<p>Universa entrou em contato com as ouvidorias dos n\u00fameros 100, 190 e 180 sobre a acessibilidade para surdos, mas at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem n\u00e3o obteve respostas.<\/p>\n<p>Marcelo Testoni<\/p>\n<p>Colabora\u00e7\u00e3o para Universa<\/p>\n<p><u>\u00a0<\/u>Fonte:<a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/universa\/noticias\/redacao\/2020\/12\/15\/professora-vira-referencia-no-combate-a-violencia-contra-mulheres-surdas.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.uol.com.br\/universa\/noticias\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m das quase 180 mil mortes no Brasil, a pandemia do novo coronav\u00edrus tamb\u00e9m tem contribu\u00eddo para o aumento de outra preocupante pandemia paralela: a da viol\u00eancia dom\u00e9stica contra mulheres em isolamento social. 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